Ceilândia:

Em 1969, com apenas nove anos de fundação, Brasília já tinha 79 mil favelados distribuídos em 14 mil barracos, aproximadamente um quinto da população do Distrito Federal daquela época, que era algo como 500 mil habitantes. Essa população de favelados estava espalhada nas invasões do IAPI, Morro do Urubu, Placa das Mercedes, Sarah Kubistchek, Vilas Tenório e Esperança, Bernardo Sayão, Colombo e outras situadas nas proximidades do Núcleo Bandeirante. Esses núcleos de ocupação haviam se iniciado com os “candangos”, os operários que construíram Brasília, e que após a inauguração da cidade, descumpriram a ordem de despejo do governo federal e se recusaram a deixar Brasília. Esses núcleos iniciais foram então sendo acrescidos ao longo dos anos 60 de novas e constantes levas de retirantes que vinham para a nova capital do Brasil em busca do progresso prometido por JK. Muitos vinham fugindo da seca no nordeste, outros motivados pela falta de oportunidade de trabalho em suas regiões de origem e outros movidos pela ambição de “fazer a vida” numa cidade recém-inaugurada e que passaria a sediar todos os poderes da República.

Como os governantes continuavam a tratar essas ocupações como “invasões” e como a necessidade de mão de obra ainda era muito grande numa cidade onde tudo estava por se fazer, o governo não tomava qualquer atitude para organizar o povoamento crescente de retirantes, que seguia de forma desordenada e sem a mínima infraestrutura. A marginalidade, a prostituição, a criminalidade, as doenças contagiosas conviviam entre os moradores que compunham as favelas brasilienses, aos moldes da antiga capital federal, o Rio de Janeiro, a qual Brasília deveria supostamente superar…

Saiba mais sobre isso ouvindo este episódio sobre a Ceilândia.


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PARTICIPANTES
FONTES
  • Ceilândia é reduto da nova classe média – Link
  • Feira Central da Ceilândia – Link
  • SEVERO, Denise de Sousa. Planejamento urbano no Distrito Federal: o caso de Ceilândia. Monografia. UnB – 2014 – Link
  • Comunidade Sol Nascente na Ceilândia-DF é a maior favela do Brasil – Link
  • SAMPAIO, Wesley. T.P. JK Shopping e Tower: A produção do espaço urbano nas adjacências de Ceilândia -DF. Monografia. UnB – 2013 – Link
  • Outras fontes

VEJA MAIS

 


VITRINE

MÚSICAS DESTE EPISÓDIO
  • Zé Ramalho – Cidadão
  • Raul Seixas  Metamorfose ambulante
  • Legião Urbana – Tempo Perdido
  • A cidade é uma só (tema)
  • MC Dodô – Bomba Explode na Cabeça
  • MC Vavá – Rap da Ceilândia
  • Alceu Valença – Te Amo Brasília
  • Viela 17 – Ah Tah
  • Ellen Oléria – Senzala
  • Legião Urbana –  Faroeste Caboclo
  • Liberdade Condicional  – Foi na Ceilândia
  • Gonzaga e Gonzaguinha – Minha Vida é Andar Por Esse País
  • Luiz Gonzaga – Asa Branca
  • Talk Talk – Life’s What You Make It
  • The Cars – Drive
  • Timmy Thomas – Why Cant We Live Together

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  • Isso realmente me surpreendeu, um cast sobre a cidade que cresci e atualmente vivo o/

    Deixa eu terminar de ouvir pra poder resenhar melhor.

    • Jorge Virgilio

      Oi, Lekler. Obrigado pelo comentário. Espero que goste!

  • Caras, gostei muito desse epsódio.
    Confesso que achei um pouco chato os dois últimos epsódios, ouvi e como sempre a qualidade estava ótima mas como o conteúdo não me despertou o interesse achei chato.
    Só que agora, nesse epsódio sobre Ceilândia…Rapaz! que legal, estão de parabéns.

    • Acontece…
      Nem todos os episódios agradam a todos, mas obrigado pelo comentário.

      • Sim, normal..Mas continuem adoro o trabalho de vocês.

      • Sim, mas por favor continuem amo o trabalho que vocês fazem.
        Não conheço um podcast melhor na internet do que o temacast

  • Darley Santos

    As periferias de nosso Brasil, com suas semelhanças e particularidades – difícil não lembrar do cast sobre a origem da favela no qual se falou da Rocinha, assim como é interessante saber do movimento cultural pujante de Hip Hop. Foi um passeio pela ambientação da música Faroeste Caboclo, da Legião Urbana – quanta informação podemos ver confirmada nessa música, o Renato foi um compositor estupendo. Bem interessante também essa confluência de influências nordestina e carioca. Mas, sério, sempre que escuto vocês falando em apartheid acho tenso isso, pois fica parecendo que o Estado é uma entidade vilanesca agindo de forma sistemática e intencional numa ação de “segregação”… Acho que não entendi bem isso, me faltou leitura desse ponto…

    • Jorge Virgilio

      Olá, Darley. Obrigado pela mensagem. Sobre esse tema da segregação recomendo o documentário “Notícias de uma guerra particular”, do João Moreira Salles (irmão do Walter Salles), o livro “A Cidade Partida”, do Zuenir Ventura, e a própria obra do Gilberto Freyre, “Casa Grande & Senzala” ou o supracitado “Brasis, Brasil, Brasília”… O Estado não é uma entidade, muito menos vilanesca – nem deve ser confundida com o governo. O Estado é conjunto de instituições de uma nação e a estrutura social historicamente constituída pela sociedade, ou seja, a sua organização social e política. Como é sabido de todos, o Brasil nos seus 516 anos de formação foi escravocrata por quase 400. Desse modo, nossas instituições e nosso “tecido social” foi formado numa lógica totalmente escravagista. Escravo não é cidadão, não possui patrimônio nem é partícipe das decisões públicas. É alguém que deve obedecer e ser vigiado e punido, quando necessário. O Escravo tem compromisso com o Estado, e não o contrário. Todo e qualquer melhoria na vida do escravo e nas suas condições de trabalho é um favor concedido pelo Senhor ao Escravo, não um direito intrínseco do Escravo. Apesar da Escravidão ter acabado oficialmente com a lei áurea, a lógica escravocrata continuou permeando as relações sociais brasileiras. É a esse projeto de Estado que nos referimos: um Estado não cidadão, um Estado escravocrata por excelência. Exemplos disso são fartos. Por exemplo, a primeira legislação trabalhista do Brasil, lá na Era Vargas, dizia que “o trabalho era um dever do cidadão para com o Estado e com a sociedade”. Por isso nós temos carteira de trabalho, pois antigamente você poderia ser preso se fosse parado pela polícia na rua e não estivesse devidamente empregado. Ou seja, trabalho não era um direito assegurado pelo Estado, era um dever do “cidadão” para com esse mesmo Estado. O economista Carlos Lessa aponta que no Brasil o desenvolvimento econômico de uma região é acompanhado do crescimento das favelas devido ao fato de que o crescimento da classe média implica na maior necessidade de “favelados” disponíveis para serviços domésticos. Inclusive, a classe média brasileira costuma buscar neofavelados (em geral, mulheres) no interior quando esses não estão disponíveis na metrópole. Recentemente, nas manifestações de 2015 foram vários os vídeos de pessoas dizendo que “não conseguiam mais meninas pra trabalhar como domésticas” por causa do Bolsa Família (sem entrar aqui no mérito se a política é positiva ou não), fica evidenciado a necessidade do brasileiro de classe média de ter favelados (neoescravos) disponíveis para tarefas como limpar a casa e fazer compras.

    • Jorge Virgilio

      Olá, Darley. Obrigado pela mensagem. Sobre esse tema da segregação recomendo o documentário “Notícias de uma guerra particular”, do João Moreira Salles (irmão do Walter Salles), o livro “A Cidade Partida”, do Zuenir Ventura, e a própria obra do Gilberto Freyre, “Casa Grande & Senzala” ou o supracitado “Brasis, Brasil, Brasília”… O Estado não é uma entidade, muito menos vilanesca – nem deve ser confundido com o governo. O Estado é o conjunto de instituições de uma nação e a sua estrutura social historicamente constituída (em miúdos, a organização política da sociedade no plano social e econômico). Como é sabido de todos, o Brasil nos seus 516 anos de formação foi escravocrata por quase 400. Desse modo, nossas instituições e nosso “tecido social” foi formado numa lógica totalmente escravagista. Escravo não é cidadão, não possui patrimônio nem é partícipe das decisões públicas. É alguém que deve obedecer e ser vigiado e punido, quando necessário. O Escravo tem compromisso com o Estado, e não o contrário. Todo e qualquer melhoria na vida do escravo e nas suas condições de trabalho é um favor concedido pelo Senhor ao Escravo, não um direito intrínseco do Escravo. Apesar da Escravidão ter acabado oficialmente com a lei áurea, a lógica escravocrata continuou permeando as relações sociais brasileiras. É a esse projeto de Estado que nos referimos: um Estado não cidadão, um Estado escravocrata por excelência. Exemplos disso são fartos. Por exemplo, a primeira legislação trabalhista do Brasil, lá na Era Vargas, dizia que “o trabalho era um dever do cidadão para com o Estado e com a sociedade”. Por isso nós temos carteira de trabalho (documento que só faz sentido no Brasil), pois antigamente você poderia ser preso se fosse parado pela polícia na rua e não estivesse devidamente empregado e comprovasse isso. Ou seja, trabalho não era um direito assegurado pelo Estado, era um dever do “cidadão” para com o Estado. O economista Carlos Lessa aponta que no Brasil o desenvolvimento econômico de uma região é acompanhado do crescimento do processo de favelização devido ao fato de que o crescimento da classe média implica numa maior demanda por favelados disponíveis para serviços domésticos e pequenos reparos. Inclusive, a classe média brasileira costuma buscar neofavelados (em geral, mulheres) no interior quando esses não estão disponíveis na metrópole. Recentemente, nas manifestações de 2015, foram vários os vídeos de pessoas dizendo que “não conseguiam mais meninas pra trabalhar como domésticas nem no interior do Nordeste por causa do Bolsa Família” (sem entrar aqui no mérito se a política é positiva ou não). Fica, portanto, evidenciado a necessidade do brasileiro de classe média de ter favelados (neoescravos) disponíveis para tarefas como limpar a casa e fazer compras. Os condomínios são as novas Casas Grandes e as favelas as novas Senzalas.

      • Darley Santos

        Hunm, uma resposta pra lá de fundamentada! Deixa ver se entendi: a lógica escravagista foi internalizada e de tal forma se faz presente até os dias atuais que inconscientemente ainda reproduzimos essas relações Senhor e Escravo? Pelo exposto acima, é uma tese que faz muito sentido sim, mas ainda sim me parece algo inadequado, tenho receio de visões que pregam determinismos do passado. Fica afirmada a ideia de que as relações escravagistas perduram de forma inexorável, ainda que disfarçadamente sob a luz da Constituição. Pois sim, o saldo da escravidão pós-lei áurea é a marginalização e exclusão social de vários indivíduos, hoje combatida via ações afirmativas, mas… Não sei, parece que tal tese não dá conta de uma complexidade ainda maior da dinâmica social, talvez morro e asfalto, periferia e centro possam estar se relacionando de formas mais diversas do que se pensa… Bom, não tenho muita estatura pra discutir a contento essas coisas, por isso agradeço a indicação do material, procurarei ler os livros recomendados; “Casa Grande & Senzala” já era ter lido há bastante tempo, e neste caso aqui, me parece ser uma leitura basilar. Obrigado pelos esclarecimentos, e abraços!

        • Jorge Virgilio

          As relações não perduram de forma inexorável, entretanto, elas têm bastante força ainda. Principalmente, porque o caminho escolhido aqui foi o de ignorar o problema. O Brasil adotou a crença de que não era racista/segregacionista e que as desigualdades intrínsecas da escravidão poderiam ser superadas pelo branqueamento progressivo da população. Ou seja, não se pensou em nenhum tipo de compensação pros ex-escravos na época, nem se promoveu qualquer tipo de medida inclusiva como a distribuição de terras ou algum tipo de linha de crédito (o que houve nos EUA, por exemplo). Afinal, em última instância, o negro deveria desaparecer do Brasil eventualmente (calculava-se na época o branqueamento total do Brasil por volta do ano 2000). É preciso atentar que no fi nal do Império, 80% ou mais da população brasileira era preta ou parda, sendo muitos desses negros africanos natos ainda (devido ao tráfico ilegal). Tanto que aqui no Rio, por exemplo, os bairros da região portuária (de Gamboa a Santo Cristo) formavam a chamada “Pequena África”, onde existiam vários núcleos de afrodescendentes organizados ainda de acordo com suas nações africanas originais e comandadas por um príncipe africano, Dom Obá II, que era inclusive amigo pessoal do D. Pedro II e herói da Guerra do Paraguai (fica a nota de que D. Obá foi expulso do Exército após a Proclamação da República). Esse núcleos africanos – depois generalizados como cortiços – não pertenciam a sociedade oficial. Era algo que deveria ser vigiado e posto sobre controle. Uma das formas de controle era considerar que esses cortiços eram “espaços públicos” já que as pessoas que ali viviam não tinham título de propriedade. Isso permitia invasões abusivas da polícia a qualque r hora do dia ou da noite. Outra forma de controle, comum na 1ª República, era que a polícia tinha autorização para parar um morador de cortiço e verificar se ele tinha calos nas mãos e nos pés. Caso não tivesse, poderia prendê-lo por vadiagem (mais tarde isso evoluiu para um método mais civilizado chamado “carteira de trabalho”). Isso explica claramente porque as nossas polícias foram moldadas como instituições autoritárias e violentas (visto que a maioria dos brasileiros encontrava-se nessa situação de “não cidadania”). Os cortiços, como nós vimos, evoluíram para as favelas, e daí decorre a comparação. Claro que houve avanços. Mas quando eu digo que a favela é uma continuação da senzala é por esse motivo. Outra coisa que fortalece a comparação é o fato dos “cidadãos brasileiros”, ou seja os outros 20%, terem total aversão a trabalhos manuais (que os aproximariam das “classes perigosas”, “não cidadãs”). Subir de vida no Brasil significa progressi vamente acercar-se de uma estrutura de serviçais que lhe permitam não mais fazer esforços manuais como ir às compras, limpar a casa, descer o lixo do apartamento, pegar sua correspondência, fazer pequenos reparos em casa, empurrar o carrinho de bebê ou passear com o cachorro (veja que na Europa todo mundo faz isso sem precisar de subempregados e nos EUA é comum os adolescentes fazerem isso no tempo vago. No Brasil um adolescente de classe média só limpa privada se for “working experience” no estrangeiro). O simples fato de se construir casas/apartamentos com quartos de empregada demonstra o quão essa estrutura é parte do nosso ser brasileiro. Repare também que essas profissões tendem sempre a um elevado nível de informalidade – apesar de serem serviços amplamente utilizados pela classe média – permitindo assim um controle maior sobre os trabalhadores braçais (vide os camelôs, que não são definitivamente regulamentados para fortalecer o poder público de expulsá- los ou não do ponto, reforçando uma lógica de distribuição de favores ao invés de uma de direitos. Ou ainda da empregada doméstica que recebe “um a mais” do patrão ou leva um ventilador/colchão velho pra casa porque é “da família”). Ela é “da família” não por ser um igual na família, mas por ser patrimônio da família. Recomendo os filmes “Quanto vale ou é por quilo?” e o recente “Que horas ela volta?”, que tratam dessas questões.

          • Darley Santos

            Tenho que salvar essa resposta, ficou claro agora tudo que vocês falaram no cast! Quando você falou “branqueamento progressivo da população” e depois “em última instância, o negro deveria desaparecer do Brasil eventualmente (calculava-se na época o branqueamento total do Brasil por volta do ano 2000)”, nos primeiros instantes fiquei meio escandalizado rsrs! Entendi a origem da comparação então quando li “esses núcleos africanos – depois generalizados como cortiços” e “os cortiços, como nós vimos, evoluíram para as favelas, e daí decorre a comparação”. E seria algo de fato atual ainda: “subir de vida no Brasil significa progressivamente acercar-se de uma estrutura de serviçais que lhe permitam não mais fazer esforços manuais como ir às compras (…)”. Bom adendo quando você compara a situação com os outros países, mostrando como isso é bem próprio da formação sociocultural do brasileiro.

  • Ainda não ouvi, mas antes de terminar o ano gostaria de agradecer pelo excelente podcast companheiro desse ano em minhas rotinas diárias, pesso desculpas por quase nunca escrever comentários, mas creio que eu sou um de muitos que torcem por vocês no anonimato 😉 boa sorte e sucesso em 2017.

    • Jorge Virgilio

      Obrigado pelo comentário, elogios e pelo incentivo, Vitor. Em 2017 estaremos de volta com toda a força!

  • Continuando a maratona aqui, a gente não sabia que era assim naquele pedaço do país, foi um programa muito bom. Abraços!

    • Jorge Virgilio

      O Temacast não é o Globo Repórter mas traz o Brasil desconhecido até vocês. Força aí na maratona. Abs!

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